Empresas gastam mais com consultoria


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As empresas americanas estão investindo mais em bons conselhos. Para isso, elas estão recorrendo a consultores externos para lidar com desafios cada vez mais complexos, que vão desde acionistas ativistas até a integração de aquisições. Entre essas empresas estão a fabricante de produtos hospitalares Baxter International Inc., a gestora de recursos Northern Trust Corp. e a companhia aérea Alaska Air Group Inc.

O mercado de consultoria dos Estados Unidos, o maior do mundo, cresceu US$ 3,9 bilhões no ano passado, para US$ 54,7 bilhões, segundo a firma de pesquisas de mercado Source Global Research — isso depois de ter crescido US$ 4,2 bilhões em 2014. A firma, que é especializada em clientes de grande e médio porte, estima que os pagamentos a consultores nos EUA cresçam outros 10% neste ano.

Neste período de baixo crescimento econômico, os diretores financeiros buscam formas de elevar a receita e o lucro sem aumentar os gastos com pessoal. Esses executivos têm que comparar os custos elevados dos serviços de consultoria com os possíveis benefícios que os conselhos de um especialista externo podem trazer.

Rápida inovação tecnológica, regulações mais rígidas e novos concorrentes são alguns dos fatores que estão contribuindo para a demanda por consultores externos, segundo consultores e pesquisadores de mercado.

“As consultorias são como encanadores; elas são contratadas quando há algo errado com seu sistema de aquecimento e não é economicamente viável você ser treinado para ser um encanador”, diz Fiona Czerniawska, uma das fundadoras da Source Global.

A fabricante de equipamentos médicos Baxer tomou a decisão de pedir ajuda a um especialista em agosto de 2015, quando seus executivos foram avisados de que o fundo ativista Third Point LLC havia comprado uma fatia da empresa que rapidamente cresceu para quase 10%.

“Nós trouxemos vários consultores para garantir que estávamos adotando as medidas certas, na hora certa”, diz o diretor financeiro da Baxter, Jay Saccaro.

Os consultores ajudaram a equipe da Baxter a avaliar como os investidores viam a estratégia e as práticas de governança da empresa, identificando problemas importantes, diz Saccaro. Eles também ajudaram a Baxter a elaborar e executar um acordo com o fundo que incluiu mudanças na instável estrutura do conselho de administração. Munib Islam, um sócio do Third Point, tornou-se membro do conselho.

Desde então, Islam se tornou um ativo valioso para a equipe da Baxter, diz Saccaro. Islam ajudou a empresa a contratar o brasileiro José Almeida como diretor-presidente e alertou sobre as complexidades regulatórias da venda de ações da Baxalta Inc., uma firma que foi desmembrada da Baxter, acrescenta Saccaro.

“No nosso caso, a situação funcionou muito bem”, diz Saccaro.

É verdade que gastar rios de dinheiro com consultoria contraria alguns especialistas, que dizem que tal dependência de consultores externos levanta dúvidas sobre a competência da administração. Os principais executivos de uma empresa deveriam ter ferramentas para cortar custos, avaliar estratégias ou conduzir uma reestruturação, diz Lawrence Hrebiniak, professor emérito de administração da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia. A cúpula da empresa “deveria saber como fazer a maioria dessas coisas. Eles deveriam saber como pensar estrategicamente”, diz ele.

Mudanças repentinas, entretanto, podem exigir a presença temporária de alguns especialistas. “Às vezes, algumas situações requerem pessoas qualificadas e capazes, necessárias por certo período de tempo, mas não para sempre”, diz Fred Crawford, vice-presidente sênior da consultoria AlixPartners LLP. Crawford diz que o benefício de contratar consultores para um projeto é que, depois de um período de tempo definido, os diretores financeiros podem “pedir para eles irem embora”.

A Northern Trust buscou a ajuda de consultores para lidar com regulações do Federal Reserve, o banco central americano, que a partir de 2014 exigiram que a firma fosse aprovada nos chamados testes de estresse, concebidos para mostrar como a gestora de ativos se sairia numa crise econômica.

“Não é que estamos fazendo isso por 20 anos”, diz Joyce St. Clair, diretora de gestão de capital, responsável pelo processo de teste de estresse da Nothert Trust. “Um dos motivos pelo qual trabalhamos com consultores externos é para ter uma sólida compreensão das melhores práticas e ficar a par do que nossos concorrentes estão fazendo.”

Steve Sadove, diretor-presidente da varejista Saks Inc. de 2006 a 2013, diz que contratou consultores para vários projetos ligados a estratégia, tecnologia e redução de custos. Ele diz que os consultores frequentemente trazem experiências que ajudam as empresas a economizar muito mais do o que eles custam.

“Eu não acho que você contrata consultores automaticamente, a menos que você acredite que o valor agregado será substancialmente maior do que o custo, ou quando você absolutamente não acredita que tenha os recursos”, diz Sadove.

Quando a contratação de um consultor é considerada para uma tarefa especial, o diretor financeiro deve avaliar se o projeto faz sentido econômico, depois de descontado o custo do serviço, diz Christian Campagna, líder da área de diretoria financeira e valor empresarial da consultoria Accenture Strategy. Muitas empresas de consultoria, incluindo a Accenture, agora oferecem a opção de vincular as tarifas que cobram às reduções de custos ou benefícios obtidos.

Os diretores financeiros gostam quando os interesses dos consultores se alinham com os seus próprios. “Isso dá a eles uma sensação de que as consultorias realmente valem o que eles estão gastando”, diz Campagna.

Manter os custos baixos é o foco do diretor financeiro Brandon Pedersen, da companhia aérea Alaska Air, enquanto sua equipe se prepara para uma fusão com a Virgin America Inc. A empresa planeja usar consultores em várias tarefas, incluindo a integração de sistemas de tecnologia e a obtenção da aprovação dos reguladores para as duas empresas operarem como uma, diz uma porta-voz da Alaska Air.

“Os preços importam muito”, disse Pedersen a investidores em abril, durante uma teleconferência de resultados da empresa. “O orçamento para consultores será rigidamente controlado.”